X-men -Apocalipse: como combinar técnica e entretenimento

“Pelo menos nós podemos todos concordar que terceira parte é sempre a pior.”

xmen apocalipse - desopilandopoa

Já faz dezesseis anos que X-Men: O Filme (X-Men, Bryan Singer, 2000) estreava nos cinemas e iniciava uma longeva série cinematográfica com altos e baixos, mas que após os tropeços de X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006, Brett Ratner) e X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, Gavin Hood, 2009) foi obrigada a se reinventar e o fez com bastante consistência nos ótimos X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, Matthew Vaughn, 2011) e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, Bryan Singer, 2014). Chegando para encerrar esse nova trilogia, X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, Bryan Singer, 2016) continua desenvolver o universo mutante e planta sementes para o futuro da série. Falha, porém, em apresentar um antagonismo relevante justamente ao fazer o grupo enfrentar sua maior ameaça até agora, o que acaba por tornar verdadeira a citação metalinguística tirada do próprio filme que abre esse texto.

En Sabah Nur ou, como passa a ser conhecido, Apocalipse (Oscar Isaac), considerado o primeiro – e o mais poderoso – mutante a surgir na face da Terra, reinava absoluto como um deus no Egito antigo, vivendo eternamente ao, sempre que o peso do tempo o limitava, assimilar o corpo de jovens mutantes e, consequentemente, suas habilidades. Mesmo protegido por um grupo de mutantes dotados por ele de poderes especiais, conhecidos como os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, uma traição o faz entrar em um estado de sono forçado sob o que foi um dia seu templo piramidal. Quando finalmente desperta, em 1983, Apocalipse não perde tempo para moldar esses tempos tão diferentes à sua vontade, recrutando um novo time de cavaleiros, entre eles um enlutado Magneto (Michael Fassbender). Para combater essa gigantesca ameaça, Mística (Jennifer Lawrence) estimula os jovens estudantes da escola de Charles Xavier (James McAvoy) a lutarem e se tornarem X-Men.

Com um desenvolvimento narrativo e dramático coeso, tornando compreensível uma trama que, se não é complexa, é repleta de elementos e personagens, em uma análise mais rasa poderia parecer que o resultado deveria ser no geral satisfatório. Esta afirmação não se confirma totalmente pela razão de seu principal problema não ser apenas o antagonista principal, mas também o responsável por toda a premissa do filme, estando inclusive em seu subtítulo. Apocalipse, vivido por um esforçado Oscar Isaac, escondido por baixo de quilos de maquiagem e computação gráfica, é um vilão apático que mesmo causando impactos jamais vistos em toda a série, falha em causar temor na audiência. O que acaba sendo muito grave porque não apenas suas ações, como as consequências delas são terríveis e fundamentais para o engajamento do público com o longa. Mas quando a única resposta que tão monstruoso inimigo causa na platéia é indiferença, nada do que fizer irá adiantar. Parte da culpa cabe ao equivocado design do personagem, problema diagnosticado desde que as primeiras imagens oficiais de X-Men: Apocalipse foram reveladas na internet, e que pouco melhorou com o produto pronto. Outra parte da responsabilidade é do diretor Bryan Singer, comandando seu quarto filme na franquia, que não soube estabelecer Apocalipse como a ameaça que o roteiro diz que é e tampouco deu espaço para que o usualmente competente Isaac pudesse fazer alguma diferença em sua pele.

Esta situação se torna mais lamentável, a medida que em praticamente quase todos os outros aspectos o filme se sai muito bem. Por ser uma espécie de conclusão da trilogia iniciada em X-Men: Primeira Classe, Apocalipse se preocupa em dar um desfecho a trajetória dessa fase da vida dos três protagonistas, Xavier, Magneto e Mística. Tanto que alguns elementos vistos no filme de 2011 retornam, como a Agente Moira Mactaggert (Rose Byrne), cujo destino tinha ficado anteriormente em aberto, e o campo de concentração onde os poderes de Magneto se manifestaram pela primeira vez. Muito da força dramática do longa reside nos posicionamentos e nas decisões tomadas pelos três conforme o avanço da narrativa. A postura passiva de Xavier vai dando lugar ao pragmatismo de Mística, cujo arco dramático na série a levou de vilã a ícone de esperança mutante, criando assim uma essência para os X-Men, combinando o pacifismo com a necessidade de auto-defesa. Já Magneto, ajudado pela emotiva interpretação de Michael Fassbender, se torna o personagem mais trágico do filme, balançando perda, fatalismo e lealdade. A ação, com exceção de dois momentos que serão comentados mais a frente, não é especialmente marcante, mas suficientemente competente, sabendo combinar de maneira criativa os variados poderes mutantes.

Sem o pano de fundo político dos filmes anteriores, passados, respectivamente, nas décadas de 60 e 70, os anos aqui se tornam uma espécie de personagem. Presente nos figurinos, penteados, trilha sonora e no padrão de comportamento, a “década perdida” se reflete principalmente nos jovens mutantes, na verdade o nosso reencontro com figuras clássicas como Cíclope (Tye Sheridan), Jean Grey (Sophie Turner), Noturno (Kodi Smit-McPhee), Tempestade (Alexandra Shipp) e Anjo (Ben Hardy), os dois últimos parte dos Cavaleiros do Apocalipse. Em sua maior parte coerentes e fiéis a suas representações adultas, eles tem pouco espaço dramático para brilhar, com exceção do Cíclope, que, com uma perda, inicia o seu destino de líder e Jean, cujo imenso poder é essencial para o desfecho da trama, abrindo caminho para a adaptação de um celebrado arco dos quadrinhos que não foi bem sucessido quando abordado em outra oportunidade pela série.

Mas são duas sequências que realmente fazem valer o ingresso e tiram de fato X-Men: Apocalipse do campo da medíocridade. Revelada no último trailer, a participação especial de Wolverine (Hugh Jackman) se restringe a uma cena, mas satisfaz por mostrá-lo com um lado animalesco jamais visto anteriormente. Referenciando em toda concepção visual um arco fundamental na trajetória do personagem, o momento ainda serve como a continuação de um processo, iniciado em Wolverine: Imortal (The Wolverine, James Mangold, 2013) e que passou por X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e até pelo recente Deadpool (Idem, Tim Miller, 2016), de deletar os eventos do infame X-Men Origens: Wolverine. E Mercúrio (Evan Peters), que já havia roubado a cena em sua participação em Dias de um Futuro Esquecido, repete a dose aqui, desta vez embalado pelo sucesso do Eurythmics, Sweet Dreams (Are Made of This), lançado no mesmo ano em que se passa o longa. Ainda mais complexa e irreverente que a do filme anterior, a sequência é um espetáculo que serve como um exemplo de como combinar técnica e entretenimento.

Mesmo com momentos extasiantes como os mencionados, a sensação final é a de X-Men: Apocalipse poderia ser um filme bem melhor do que acabou sendo. Não porque a terceira parte é sempre a pior, mas por seus próprio erros.

Por Lucas Coelho Gonçalves

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