A Garota no Trem: nem Emily Blunt salva trama previsível

Vendido como o filme baseado no “livro que chocou o mundo”, A Garota no Trem (The Girl on the Train, Tate Taylor, 2016) não chega nem perto de fazer juz a tão superlativa tagline. Suspense com um viés de drama psicológico medíocre, tenta se estabelecer com uma trama inteligente e bem armada. O que até poderia funcionar a contento, se o roteiro fosse realmente tão inteligente quanto o longa parece acreditar que é.

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Rachel (Emily Blunt) vive uma crise existencial agravada pelo divórcio com Tom (Justin Theroux), agora casado com a antiga amante, Anna (Rebecca Ferguson), que teve a filha que ela sempre quis mas jamais conseguiu ter com o ex-marido. Afundada no alcoolismo, que lhe leva a ter “apagões” de memória e esquecer coisas que faz quando muito bêbada, sua única alegria é observar do trem que lhe leva a Nova Iorque e de volta os breves momentos de um casal que vive em uma casa próxima da que morava quando casada e fantasiar com a vida perfeita que ela acredita que vivem. O encanto se quebra quando em uma dessas viagens a protagonista observa a mulher aparentemente trocando carícias com outro homem. Ao acordar na noite do mesmo dia com sangue e hematomas e nenhuma lembrança de como ficou assim, e essa mesma mulher, Megan (Haley Bennett), é dada como desaparecida, Rachel se vê envolvida nesse mistério.

Supostamente construindo uma trama complexa, alternando momentos no presente com flashbacks, o filme acaba por apostar em uma estrutura que só evidencia suas fragilidades. As principais revelações feitas no terceiro ato são facilmente presumidas muito antes, o que torna ainda mais patética a abordagem dos falsos suspeitos, descartados da trama assim que ficam sem serventia ao roteiro. Quaquer ambição de análise psicológica vai por água abaixo quando o verdadeiro culpado se torna o mal encarnado, evitando um possível aprofundamento sobre sua influência em suas ví­timas. Todo o esforço em dar algum significado para a agonia e o sentido de deslocamento de Megan se perde nas conveniências do roteiro cada vez que ele aponta para um lado (geralmente de maneira tão artificial que só torna mais claro o que ou quem ele deseja esconder).

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Rachel (Emily Blunt)

Mesmo sabotada pela já citada necessidade do enredo de “vitaminar” suspeitas em detrimento da própria coerência, Emily Blunt faz o possível para fazer de Rachel uma personagem crível. Mesmo quando por vezes o filme faça a protagonista parecer uma caricatura, ela jamais é tratada assim por Blunt, algo difícil em relação a uma personagem com problema de alcoolismo. A linha entre um retrato sincero e o involuntariamente cômico é muito tênue. A atriz, contudo, não deixa em momento algum que ela seja ultrapassada. O resto do elenco não consegue superar e sucumbe à falta de qualidade do material. Rebecca Ferguson, grande revelação no recente Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, Christopher McQuarrie, 2015), quase irreconhecível de cabelos loiros, decepciona em um papel insosso e unidimensional e Haley Bennett vive com pouca expressividade uma mulher que deveria ser uma incógnita, mas se torna apenas aborrecida. Já o elenco masculino não vai muito além das figuras estereotipadas desenhadas no texto.

Raso, pretensamente inteligente, porém previsível, com um “erotismo” meticulosamente calculado para não alcançar uma censura alta, A Garota no Trem é um forte candidato a exibições futuras no Supercine. Salva-se a boa atuação de Emily Blunt, que definitivamente merece filmes melhores.

Por Lucas Coelho Gonçalves

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